Eram exatamente 05:41 quando pararam de transar. Os olhos percorriam cada detalhe do corpo, prendendo-se infinitamente aos pormenores do rosto. Seus lábios não eram secos, tinham desenhos perfeitos, como se os tivessem desenhado. Era realmente uma dádiva.
Um pouco diferente do que se vê na televisão,
eram duas mulheres, dois pares de seios -
e dois corações, não duas cabeças. Era o psicologicofeminino juntamente com o prazerirracional, aquele que se sente mais no coração, que acelera qualquer batimento, daí a taquicardia. A respiração era insana mas cominada com um ar calmo, vai entender? Nem um Vade Mecum conseguiria reunir todos os códigos femininos, e na cabeça feminina só há processo solene para novos artigos. Transar com o mesmo sexo não é mera escolha, e nem mero desejo. É preciso saber quem se é, e por qual motivo é.
E elas sabiam. Inclusive descobriram no dia 25 de novembro do ano de 2009, o quanto uma pertencia a outra, de maneira trágica, esquisita e engraçada - o que só acontece com as mulheres.
Elas se amavam tanto. Faziam caretas, dormiam numa mesma cama por mais que a cada movimento fosse um barulho de trem, enquanto uma virava para o lado de fora da cama, um nhéc histórico, enquanto a outra ajeitava o braço por baixo do travesseiro, o nhéc épico.
Sobreviviam assim, 'aguentando-se' na mesma instituição de ensino, todas as manhãs. Aquilo era bom, pois sempre após uma briga da madrugada vinha a calmaria da manhã encontrar seus coraçõezinhos. Elas se amavam tanto. Tiveram problemas no passado, vários, e como dizem as linguas corriqueiras, não deixaram a peteca cair e continuaram levando o relacionamento com a mesma empolgação do começo. Trágico, esquisito e engraçado. Foram muitas mágoas - superadas - que juntaram ao álbum das recordações para o futuro casamento como um obstáculo vencido, e mais tantos outros que ainda deveriam ser ultrapassados.
Por vezes eram antiquadas, gostavam atualmente de ficar em casa curtindo suas caretas e vozes daquela época melosa que nunca iria acabar - elas tinham certeza, pois a cada briga o amor era maior, a perseverança era maior, as besteiras amáveis eram maiores. Essa coisa que hoje é brega, o ficar em casa, pra elas era bonito, batia aquela linda saudade, apenas dois minutos após uma delas se levantar da cama e anunciar a partida. Aquele entrelaçado era tão lindo que não tinha muito o que dizer sobre elas, eu vinha observando de longe por esses longos 20 anos, e nunca havia percebido que elas tinham a mesma forma de se proteger: atribuindo a culpa à outra. Era um foi você pra lá, é você quem faz isso, é você que não me ama, sou eu que não vou mais ficar aqui pois VOCÊ é quem pediu isso. Vê se pode? E mesmo assim elas se amavam tanto. Com todas as proteções, medos, carinhos, felicidades, sorrisos!
Seu filho era lindo. Lembro-me com exatidão o dia em que uma delas resolveu engravidar, alguns diriam 'loucas' - mas depois que aquele menino nasceu, ninguém se atreveu a dizer mais uma palavra contrária ao amor de duas mulheres. Amor esse que pode não conseguir gerar uma criança biológicamente, mas que gerou uma criancinha nos seus corações, e que só precisou de um agente para realizar esse desejo.
Há pessoas que julgam uma forma estranha de amor, que para quem vive não é estranha, todos aqueles que criticam essas formas de amar é porque não entendem o verdadeiro significado do amor. O amor está em nós, nos corações, da maneira que ele vier.
Aos que sofrem por ter sua felicidade julgada, um recado de Martin Luther King Jr.
"no fim, nós não vamos nos lembrar das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos".